“A região convoca a gente a militar em defesa do Cerrado”, diz assistente social e comunicadora socioambiental
No dia 22 de setembro, às 19h, Amanda Alves participa da live “Defesa do Cerrado e Impactos Climáticos”, promovida pelo grupo Sacralidade da Terra, da Congregação das Irmãs Franciscanas de Allegany. Impactos do agronegócio, ausência de proteção ambiental e destruição das águas, dos povos e das fontes de sobrevivência do bioma são alguns temas discutidos.
Letícia Jury
21 de setembro de 2026
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Amanda Pereira Alves é comunicadora socioambiental, artivista audiovisual e assistente social. Atua na defesa dos povos, das mulheres, das águas e dos territórios do Cerrado, junto à Articulação de Mulheres pelo Cerrado do Oeste da Bahia, ao Coletivo de Fundo e Fecho de Pasto da Bacia do Rio Corrente e à Comissão Pastoral da Terra (CPT) Centro-Oeste/BA.
Nascida em Correntina e criada em Jaborandi, no Oeste da Bahia, Amanda acompanha as transformações do território e as lutas das comunidades tradicionais. Nesta entrevista, ela fala sobre o avanço do agronegócio, o desmatamento, a redução das águas e os impactos sobre os povos do Cerrado. Também aborda a resistência das comunidades e a defesa dos territórios, das águas e dos modos de vida que fazem parte da história da região.
No dia 22 de setembro, às 19h, Amanda participa de uma live promovida pelo grupo Sacralidade da Terra, das Irmãs Franciscanas de Allegany, para falar sobre a defesa do Cerrado e os impactos das mudanças climáticas no território.
Baru - Como se deu a sua trajetória de defesa do Cerrado?
Amanda Alves - Eu falo aqui das barrancas do Rio Corrente, na região da Bacia do Rio Corrente. Estou no município de São Félix do Coribe, com São Félix de um lado e Santa Maria da Vitória do outro. Nasci no município de Correntina, quando Jaborandi ainda fazia parte de Correntina, e vivi minha infância e minha juventude em Jaborandi. Foi lá que comecei minha trajetória junto às comunidades. Atuei na Pastoral da Juventude do Meio Popular, a PJMP, uma pastoral que teve grande importância na minha vida e na minha formação enquanto jovem. Comecei a caminhar junto com as comunidades e também a participar das lutas contra os projetos de barragens que já existiam, naquela época, para o Rio Formoso. Foi nesse contexto que trouxemos para a região o 'Movimento dos Atingidos por Barragens'. Durante alguns anos, atuei nesse movimento em defesa das águas, dos rios e do Cerrado. Depois, mudei para a cidade onde moro atualmente e continuei minha militância. Sou assistente social de formação e, posteriormente, migrei também para o audiovisual. Hoje faço comunicação e costumo dizer que sou uma artivista, uma artista visual voltada para o ativismo socioambiental e para a defesa desse bioma que é a nossa casa comum, onde nascemos, vivemos e amamos: o Cerrado.
Baru - Você sempre vivenciou as lutas dos povos do Cerrado?
Amanda Alves - Sim. Comecei minha militância muito jovem, por volta dos 12 ou 13 anos. De lá para cá, sempre caminhei com os povos e as comunidades. Sou filha de agricultores, e isso é muito forte. Essa relação pulsa na gente. Vivi minha infância e minha juventude transitando por essas águas, por esses territórios. A vida foi nos levando para essa luta. Eu não diria que escolhi fazer militância. A região convoca a gente a militar em defesa do Cerrado.
Baru - Principalmente quando vemos de perto a degradação ambiental, não é mesmo?
Amanda Alves - Na década de 1970, essa região começou a ser ocupada pelo agronegócio. Foi uma ocupação muito rápida, marcada pela expulsão de comunidades tradicionais, pela grilagem de terras e por um forte processo de desmatamento que levou ao desaparecimento de parte do Cerrado. Hoje, o que temos de Cerrado em pé na região está, principalmente, onde estão as comunidades e os povos tradicionais. Por isso, temos lutado em defesa desses territórios, para que seja possível manter o pouco de Cerrado que ainda temos em pé. Essas comunidades são protetoras das nascentes e da sociobiodiversidade. Defender esses territórios é defender a vida e a nossa própria existência, tanto no presente quanto para as futuras gerações.
Baru - Assim como no Estado de Goiás, o Oeste da Bahia costuma ser apresentado como um grande polo de produção agrícola, o que legitima a destruição do Cerrado.
Amanda Alves - O Oeste da Bahia ficou conhecido como o “celeiro do mundo”, e essa imagem ganhou muita força nacional e internacionalmente. A região passou a ser associada à produção de commodities agrícolas. Mas, para quem nasceu aqui e sempre viveu aqui, essa é uma região que vai muito além disso. É um território de vida, marcado pela riqueza da agricultura familiar, dos povos, do Cerrado, das águas, dos saberes ancestrais e da cultura. A vida é profundamente enraizada nessa terra. A cultura é muito forte, assim como a alimentação e os modos de viver. Por isso, sentimos muito quando o mundo olha para essa região apenas como uma fronteira agrícola, como uma grande produtora de commodities, como se fosse necessário passar por cima de toda a história desse território para produzir dinheiro.
Baru - E os impactos dessa visão puramente econômica são desastrosos.
Amanda Alves - É muito preocupante pensar nesse modelo de produção porque ele passa por cima da vida. Todos os anos temos áreas enormes de desmatamento. Os índices nacionais tornam cada vez mais evidente o impacto desse modelo sobre o Cerrado. Os municípios da região aparecem repetidamente entre aqueles com maiores índices de desmatamento do país. Em 2025, segundo o Relatório Anual do Desmatamento no Brasil, a Bahia ficou em terceiro lugar em nível de desmatamento. Jaborandi, município onde vivi minha infância e juventude e onde comecei a defender o Rio Formoso, ficou em primeiro lugar em desmatamento na Bahia. Depois aparecem municípios como São Desidério, Cocos, Formosa do Rio Preto, Barreiras e Correntina. Esses municípios têm feito uma espécie de rodízio entre os maiores índices. O desmatamento começa em regiões como Luís Eduardo Magalhães, Barreiras e São Desidério e vai avançando, passando o correntão e arrancando o Cerrado. E, junto com o Cerrado, morrem as águas, os bichos e os animais. O desmatamento ocorrido em 2025 na região ultrapassou 110 mil hectares. Para termos uma dimensão, isso corresponde a aproximadamente 155 mil vezes o tamanho da área do Estádio do Maracanã. É uma quantidade imensa de Cerrado destruído.
Baru - Pouco se fala, mas há uma grande preocupação com as águas, não é mesmo?
Amanda Alves. É outra forma muito agressiva de produção de riqueza, é a utilização da água. É muita água retirada dos nossos rios. Como os rios vêm reduzindo muito o volume, as fazendas passaram a utilizar também a água do Aquífero Urucuia, que é um importante reservatório subterrâneo da nossa região e hoje passa por um momento de muita fragilidade. O aquífero não consegue acompanhar essa demanda. Entre as tecnologias utilizadas pelo agronegócio estão os grandes reservatórios, os chamados piscinões. Existem reservatórios de 20, 30 hectares, e o maior piscinão do Oeste da Bahia chega a 60 hectares. A água é retirada do aquífero para encher esses reservatórios e irrigar as plantações. Então, não são apenas os grãos que estão indo para o exterior. É a nossa água também. Estamos falando de uma água que está nesse aquífero há milhões de anos, um reservatório natural que tem sido utilizado para sustentar um modelo de produção concentrado.
Baru - Você fala em um processo de “morte das águas”. Isso é desastroso para as comunidades ribeirinhas.
Amanda Alves - Eu acho que estamos vivendo um colapso no Oeste da Bahia. É um processo que atinge os povos e a vida do Cerrado de maneira profunda. Temos acompanhado a morte das águas na região. A CPT realizou um trabalho de mapeamento junto com as comunidades e pesquisadores, e as notícias não são boas. As próprias comunidades têm denunciado o desaparecimento das águas e relatado, com muita lamentação, a morte dos rios. Isso também tem provocado pobreza na região, porque a produção da agricultura familiar depende da água. Quando córregos, riachos e regos vão desaparecendo, em razão da redução do volume de água subterrânea, quem sofre o maior impacto são as comunidades que estão aqui há centenas de anos. Os fundos e fechos de pasto, por exemplo, ocupam esse território há pelo menos 350 anos.
Baru - O que o mapeamento realizado pela CPT já revelou?
Amanda Alves - A pesquisa realizada pela CPT junto com pesquisadores começou em 2023 e teve continuidade em 2024. Agora, em 2026, estamos dando continuidade ao trabalho porque queremos mapear todo o Oeste da Bahia. O levantamento revelou uma proporção de morte das águas superior a 7 mil quilômetros. São trechos em que as águas simplesmente desapareceram. Temos mais de 7 mil quilômetros de cursos d'água afetados nas bacias dos rios Guará, Santo Antônio, Rio do Meio, Correntina e Arrojado, entre outros rios desse território. A pesquisa ainda vai se estender para a Bacia do Rio Grande. É uma realidade muito crítica.
Baru - Há esperança?
Amanda Alves - Apesar de toda essa realidade, existe esperança. Se esses povos têm resistido a tantos avanços do capital sobre seus territórios e continuam firmes, permanecendo em suas comunidades e defendendo seus modos de vida, ainda acreditamos que é possível viver em paz nessa região. Isso também é um sinal de esperança: ainda existem pessoas lutando em defesa desse bioma tão essencial para nossas vidas. E isso nos enche de esperança.